segunda-feira, 3 de maio de 2010

Garotinho mistura política, religião e homofobia em eventos evangélicos

O pré-candidato ao governo do Estado do Rio pelo PR, Anthony Garotinho, vem percorrendo o estado em eventos evangélicos marcados por ataques aos adversários, discursos homofóbicos e pedidos de voto. É o que mostra reportagem de Cássio Bruno, publicada na edição deste domingo do jornal O GLOBO.

" Se Deus fizesse o homem para casar com homem, não seria Adão e Eva, teria feito Adão e Ivo "

"Se Deus fizesse o homem para casar com homem, não seria Adão e Eva, teria feito Adão e Ivo", canta o músico gospel Emanuel de Albertin, ao lado de Garotinho, na presença de cinco mil evangélicos durante culto em Belford Roxo, município pobre da Baixada Fluminense.

O evento, organizado pela Rádio Melodia, faz parte da chamada Caravana Palavra de Paz, realizada em cima de um caminhão, com direito a shows e pregações eleitoreiras, e que está percorrendo todo o estado.

A reportagem mostra que Garotinho não poupa críticas ao governador Sérgio Cabral, que disputará a reeleição pelo PMDB. Ele o acusa de acabar com projetos sociais de quando ocupava o cargo (entre 1999 e 2002), entre eles o Cheque Cidadão. Aos fiéis, o ex-governador refere-se a Cabral como "traidor" e pede "perdão" por tê-lo apoiado nas eleições de 2006.

" O Gabeira e o Sérgio Cabral são a favor (do casamento gay). O governador patrocina Parada Gay em Copacabana "

O deputado federal Fernando Gabeira (PV), outro pré-candidato ao governo do Rio, também não escapa das acusações. Falando sobre homossexualidade, Garotinho o ataca quando Emanuel de Albertin pergunta aos fiéis, aos políticos e aos pastores quem é a favor da união civil de pessoas do mesmo sexo. Todos dizem ser contra. Garotinho emenda:

- Todos não. O Gabeira e o Sérgio Cabral são a favor. O governador patrocina Parada Gay em Copacabana.

Procuradora representará no TRE

A procuradora regional eleitoral do Estado do Rio, Silvana Batini, analisou as imagens e os áudios da Caravana Palavra de Paz registrados pelo GLOBO em Belford Roxo e Cabo Frio. Segundo ela, os eventos caracterizam campanha eleitoral antecipada e abuso de poder econômico e de meios de comunicação.

Silvana entrará esta semana com uma representação no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) contra o ex-governador.

Ex-governador afirma que caravanas não são para plataforma eleitoral

Garotinho nega, por sua vez, que a Caravana Palavra de Paz tenha plataforma política para beneficiá-lo nas eleições de outubro. O ex-governador diz estar sendo perseguido:

- Esse evento existe há vários anos. Os cantores podem falar o que quiser. Eu não pedi voto a ninguém. Nós apenas louvamos contra a prática do homossexualismo e não contra os homossexuais. É uma prática condenada pelas igrejas católicas e evangélicas. Em relação aos políticos, digo que todos os partidos são convidados, sem discriminação.

Garotinho tem dois programas diários nas rádios Melodia e Manchete. Os programas são retransmitidos para 60 rádios no estado. Neles, o pré-candidato distribui dinheiro para os ouvintes que acertarem perguntas relacionadas à Bíblia. Os valores chegam a R$ 500 por participante. O ex-governador atua ainda em cultos da Assembleia de Deus, que já teve a presença da mulher, a prefeita de Campos, Rosinha Garotinho (PMDB), e do pastor Manoel Ferreira, pré-candidato ao Senado pelo PR.

terça-feira, 23 de março de 2010

Exibição de gays na tv

"A nota revela que 57% dos entrevistados concordam com a exibição de gays na tv. Muito me intriga o uso do substantivo feminino exibição, que significa "apresentar ao público". Neste caso, fiquemos com a vitrine onde o gay é objeto de observação e análise, portanto, não componente da vida comum, mas sim, tratado como atração a ser consumida pela audiência. Não se trata de representar o mundo em sua diversidade natural, trata-se da exibição de gays, segundo a pesquisa entre os telespectadores. Acho que a resposta correta seria: "Olha, eu discordo de qualquer exibição de humanos no sentido de objeto exótico ou anomalia". Quantos por cento concordam com a exibição de paraplégicos na televisão? E gordos? E índios? E... negros. Cheguei onde eu queria chegar, na Venus de Hotentote. Nascida em 1789 na etnia Kosha da África do Sul, esta negra de nádegas gigantescas foi enjaulada e exibida como atração nos circos da Europa dos 1800. Qual a porcentagem de humanos que concordavam com esta exibição? É possível exibir qualquer tipo de humano para entretenimento? Não seria melhor usar nestas pesquisas questões tipo "Você acha importante tratar da questão homossexual nos programas de tv?" Porque, do contrário, a pergunta "É licito exibir gays assumidos na programação da tv aberta?" torna natural que se concorde que se pode exibir as pobres bichinhas em jaulas modernas (as telinhas), assim como a antiga Venus foi exibida. Não vejo grandes diferenças entre quem pagava o ingresso para admirar a coitada da Sartjie Baartman (nome da Venus) e estes que respondem sem questionar se concordam ou não com a exibição de gays na tv. Ainda estamos no grande circo. Sempre fomos considerados estranhos. É hora de ponderar sobre a sina do esqueleto desta Venus, que tanto sucesso fez diante da corte branca: depois de autópsia, os exibidores chegaram à maravilhosa conclusão que se tratava de uma mulher inteligente e de grande capacidade de memória, portanto, sim, ela tinha um coração. Os ossos desta alegoria da imcopreensão humana sobre nossa diversidade ficaram em exibição no Museu do Homem em Paris, até a década de 80 no século 20. Em 2002, os restos mortais da venus, a pedido do presidente Mandela, retornaram a sua tribo. Mais de 200 anos de exibição! E você aí, quantos por cento da sua inteligência concorda com a exibição de gays na tv?"


(um artigo de Milton Cunha no jornal O Dia, que pra minha surpresa achei bem interessante.)

segunda-feira, 1 de março de 2010

"Finalmente, as teorias estruturalistas de linguagem situaram o sexismo nas próprias origens da cultura. Se as linguagem que as mulheres falam, na qual devem falar, é matizada no sexismo, um sexismo mais profundo que um léxico revisável, se a gramática da linguagem em si reflete o pensamento masculino, então nada que as mulheres possam dizer ou escrever na linguagem existente jamais poderá ser verdadeiramente feminista."
(in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem, Andrea Nye)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Campanha Fora Dourado, Fora Homofobia!


por Del.

Coletânea de Textos e Vídeos. Agora temos que fazer nossa parte e denunciar da forma correta.

Falar só falar, não adianta nada.

Votar loucamente no site de uma emissora que manipula informações, infelizmente também não adianta.

A prova surgiu, agora é hora de denunciar da forma correta.

Os argumentos de muitos heteros que vem aqui no PL nos OFENDER porque percebemos a homofobia do Dourado se resumem a dizer que somos frustradas, que estamos com medo da Angélica perder e estamos inventando que ele é homofóbico e isso é exagero nosso, dentre outras pérolas da cegueira.

A questão é que o povo brasileiro gosta de “Anti-Heróis”, é só perceber o histórico das outras edições do programa, o que predomina são esses tipos que não se gosta a princípio e te conquistam aos poucos por equilibrarem qualidades e defeitos: Dhomini, Diego Alemão, Max, Rodrigo Caubói, Rafinha e etc…

Dourado, se não fosse sua homofobia e machismo exagerados, serviria perfeitamente neste perfil.

Aí o que aconteceu foi que o anti-herói perdeu o controle, só que já era tarde, o público, a grande massa, já tinha se apaixonado.

Então a emissora ficou sem saber o que fazer.

Temos uma figura amada pelas massas, uma lésbica que aparentemente deu “motivo” pra ser desgostada , como contrariar tudo isso? Se tudo isso é contrariado, os telespectadores tão fãs do anti-herói perdem seus motivos para ver o programa.

Então o que a emissora faz? Ela prefere omitir… Prefere mostrar edições aonde aparentemente nada disso aconteceu, aonde a lésbica realmente fez fofoca e o anti-herói, muito justo, muito nobre, se revolta com isso.

Na verdade, o que ela fez, foi o que QUALQUER participante já fez, compartilhou com os que julga amigo, coisas dos que julga inimigos. Anamara está fazendo isso desde o começo e ninguém falou nada. Lia faz o tempo todo. O próprio Dourado tem feito isso 90% do tempo, fofoquinha, mimimi, como ele mesmo diz e a coragem que ele grita tanto ter, ele não demonstra, pois quando frente a frente com a Angélica, ele simplesmente cala.

O grande público sem ver tudo isso nas edições do programa, aplaude.

Ele está bravo com toda razão, ela fez fofoca! Coisa nunca feita antes no BBB, coisa nunca feita antes por ele, que combinava votos loucamente no primeiro programa que participou e foi expulso com 68% de rejeição. As pessoas se esquecem rápido… E o pior não estão vendo a história toda.

Então, já que votar no site não adianta, já que bater boca com os defensores manipulados dele não adianta, o que precisamos fazer é denunciar para os orgãos políticos responsáveis o que está acontecendo.

E é isso que venho a pedir pra vocês. ESCREVAM para o ministério público. Denunciem.

Isso aqui não é sobre a permanência dos coloridos na casa, mas sim da luta para se tirar uma figura homofóbica de lá que está influenciando os jovens brasileiros, que ao verem o rapaz, malhadão, descolado, cara de mau e homofóbico, acham que é muito normal e bonito ser homofóbico.


Depoimento sobre a situação via comentário:

“Pelo amor de Deus. Façam alguma coisa. Ontem minha amiga travesti,estava em seu ponto tentando batalhar seu dinheiro,quando foi atingida por um caco de vidro que veio de um carro com 4 garotos. Um deles gritou bem alto: esquadrão dourado ataca novamente. Eu nao sou nada, não tenho amigos influentes e mal sei usar computador. Estou com mais medo do que o normal por conta desse bbb. Me ajudem.

Links e vídeos sobre o caso:

Assine o abaixo assinado da campanha clicando aqui.

Aqui estão os links para o vídeo aonde ele diz que quebraria os dedos de Angélica, são todos para o mesmo vídeo, então se um estiver quebrado tente o outro. Nas versões mais longas assista a partir de 2:45.

O momento aonde cai a máscara e a homofobia se evidencia, aonde os BBB’s falam tranquilamente sobre boates gays e Marcelo perde o apetite e joga fora TODA sua comida:
http://www.youtube.com/watch?v=PRbSwpYgfOI

Vídeo de momentos homofóbicos:
http://www.youtube.com/watch?v=nByq3MtfSek

Dourado, o sincero, justo e honesto, ouvindo atrás da porta:
http://www.youtube.com/watch?v=Q6l-BmWFr80

Dourado sendo preso por posse de drogas:
http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cidade/2005/12/17/jorcid20051217003.html

Dourado com nojo da Angélica, a emissora tenta demonstrar que não é por homofobia e dá um tiro no pé:
[ Clique aqui. ]


Textos sobre o tema:

  • De cara para lua. – Um dos grandes blogs de BBB que está vendo a injustiça sendo feita na casa.
  • O Mestre da Incoerência (Versão com links e vídeos aqui. )- Texto que aponta detalhe por detalhe do como Dourado é incoerente.
  • Opinião de Jean Wyllys – O vencedor do BBB explica a adoração do povo por Marcelo Dourado.
  • Mauricio Stycer – Crítico do UOL dando seu parecer sobre dourado.
  • Ricardo Calil – Crítico do Último Segundo
  • Fani Pacheco [2] – Blog da Ex-BBB na Contigo sobre o programa.
  • Mary W. – Um dos primeiros textos apontando a situação gritante que se formava.

Twitter: @paradalesbica

Denunciem:

Para o Ministério Público:
http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/contact-info
ou por email pfdc@pgr.mpf.gov.br

Deborah Duprat
Vice-procuradora-geral da República

E-mail: Deborah@pgr.mpf.gov.br

Senador Cristovam Buarque
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado

E-mail: buarquecristovam@gmail.com

Sites:
http://www.eticanatv.org.br/index.php?sec=3&cat=7&pg=3
http://www1.folha.uol.com.br/folha/enviesuanoticia/
http://falecomaredeglobo.globo.com/
http://www.abglt.org.br/port/index.php

Telefones:
61 3105-6001 (Ministério Público Federal)
400 22 884 (Fale com a Globo)

Obrigada Gabi por estes dados!

Obrigada a todas que passaram links.

Continuem postando, quanto mais informação e união, melhor!

FONTE:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Comentário de "O Mito de Lilith, Adão e Eva"

Samarah Queen disse...

Quando analisamos profundamente a história bíblica, concluímos que foi escrita pelos fundadores da religião arcaica, conservadorista e patriarcal, que visava poder fazer melhores negócios através dos casamentos ao longo dos tempos. Tanto isto é uma verdade inegável que temos os registros da importância dos matrimônios entre os nobres, que provavelmente não aconteceriam se dependessem da vontade da mulher, caso esta fosse descendente de Lilith. As mulheres evíticas são dóceis não por opção, mas por terem sido podadas em suas raízes e moldadas de forma a se comportarem com obediencia, subserviencia e docilmente, na maior parte dos casos. Uma mulher fraca significa negócios fortes, comércio estável e alianças internacionais de todas as formas possíveis. Longe da mitologia bíblica podemos ver que a mulher Lilith está se levantando do sepulcro depois de 10.000 anos de perceptível dormência e torpez. Atualmente é esta a mulher que sustenta sozinha filhos e os próprios pais, com amor, soberania e dignidade. A mulher antes rebelde e expulsa do paraíso que fora associada ao demônio, agora ressurge entre o êxito e a eficiência de uma verdadeira filha de Deus. Amen.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Menstruação e Identidade Feminina

"A Lua Natal mostra a auto-imagem das mulheres. A menstruação está conectada com a auto-imagem porque marca porque o ciclo mensal deixa claramente marcadas as fases da vida de uma mulher, desde a menarca até a menopausa."
"Os homens não fazem uma entrada tão bem definida na condição masculina, mas para as mulheres a primeira menstruação ou a menarca é o rito de passagem para a condição feminina. Até que comece menstruar, a garotinha talvez não se identifique plenamente com a mulher adulta. O começo da menstruação é o primeiro limiar lunar importante e prepara o cenário para todos os outros que se seguem. Nossas experiências naquele momento crucial dão o colorido às percepções de feminilidade. A partir das reações dos adultos significativos, descobrimos se essa parte de nós é suja ou natural. Aprendemos se é uma coisa a positiva ser celebrada ou uma coisa vergonhosa a ser escondida. Costumes como o tapa na cara, entre os judeus, na primeira menstruação, comunicam mensagens do significado de ser mulher. Contraste-se o fato com as celebrações de um dia ou uma semana de duração, feitas para a primeira menstruação das meninas em muitas culturas nativas.
(Na falta de ritos de puberdade culturalmente sancionados, talvez a gravidez na adolescência tenha a intenção de ser parcialmente uma espécie de rito de passagem - como uma afirmação "no meio da cara" de que "agora eu sou uma mulher".)."
"Cada menstruação pode trazer para a mulher heterossexualmente ativa um momento de alívio ou desolação por não ter engravidado ainda. Muitas de nós tem medos e anseis primitivos quanto a nossa fertilidade, usando-a até certo ponto para decidir se somos ou não "mulheres de verdade". As mulheres que estão na menopausa ou sofreram uma histeroctomia muitas vezes têm sentimentos intensos em relação a essa mudança, inclusive o medo de que estejam perdendo a feminilidade. Nossa identidade feminina e senso de autovalorização estão ligados a essas funções, independentemente de nossas capacidades e realizações. Não importa quão liberadas ou instruídas sejamos, elas continuam a ter mistério e poder. São muitas intensas as emoções que temos em relação as panes do corpo que mais claramente nos define como mulheres - os seios e o útero.
Esses orgãos regidos pela Lua podem despertar sentimentos de inadequação, medo e vergonha. Os homens também reagem intensamente a eles."
(A Lua na Sua Vida - O Poder Mágico e as Influências sobre as Mulheres, Donna Cunningham)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Parteiras da consciência umas das outras


"Devemos lembrar-nos como e quando cada uma de nós passou por uma experiência da Deusa e se sentiu sarada e integral por causa desta.
São momentos santos, sagrados, intemporais, embora por mais inefáveis que se possam revelar, sejam difíceis de se reter em palavras.
Mas, quando qualquer outra pessoa menciona uma experiência semelhante, isso pode evocar as sensações que voltam a captar a experiência; se bem que só aconteça se falarmos de nossa experiência pessoal.
É por isso que precisamos de palavras para os mistérios das mulheres, o que parece exigir que uma de cada vez explicite o que sabe - como tudo o mais que é de foro feminino.
Servimos de parteiras às consciências umas das outras..."


(Jean Shinoda Bolen)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Na terra dos crentes, o diabo tem nome africano

“Houve, com o decorrer dos séculos, um sincretismo religioso, ou seja, uma mistura curiosa e diabólica de mitologia africana, indígena brasileira, espiritismo e cristianismo, que criou ou favoreceu o desenvolvimento de cultos fetichistas como a umbanda, a quimbanda e o candomblé”. (Orixás, Caboclos & Guias – deuses ou demônios ?, 15° edição, cap. 1, pág. 13).
No livro “Orixás, Caboclos e Guias – deuses ou demônios ?”, Edir Macedo expõe a sua visão, e a de muitos cristãos, sobre o que representam as religiões afro-brasileiras em nossa sociedade. Mas, engana-se quem pensa que foi Edir Macedo o primeiro a demonizar essas religiões. Diversos outros pregadores, protestantes e católicos, já travaram lutas contra as “forças das trevas”.

Os cristãos, e em especial os evangélicos, geralmente, reivindicam para si a exclusividade da “comunhão com Deus”, desconsiderando os ensinamentos das outras religiões e filosofias.

Atualmente, vemos pregadores evocando os orixás em cultos exorcistas como se estivessem evocando o próprio Satanás. Pessoas em transe psicótico embravejam dizeres que teriam como autores “entidades” como Exu, Oxossi, Olorun, etc... Milhões de pessoas ainda acreditam que as religiões afro-brasileiras são religiões “satânicas”, e que devem as suas precariedades e sofrimentos às suas origens africanas. No aurora do século XXI, assistimos ao recrudescimento do preconceito em relação a religiosidade africana. Isto é, um grande aumento, e com uma aversão que é desproporcional a capacidade de defesa dos praticantes afro-brasileiros.

A aversão às religiões de matriz afro extrapola as barreiras religiosas porque ela está impregnada do racismo contra as populações africanas. Esta aversão é o resultado dos mais de 300 anos de escravidão, e de um processo de aculturação que fez com que os brasileiros elaborassem seus princípios e valores tendo como modelo o que era mais aceito pelos antigos colonizadores europeus. Logo, para ser aceito era necessário se parecer com os europeus, viver como os europeus, e crer nos deuses europeus. Não podemos entender o sincretismo religioso como uma mera camuflagem. Mas, também, e principalmente, como uma tentativa de fuga de uma possível opressão perpetrada pela sociedade. É o medo da reprovação social que faz com que as pessoas se digam católicas “não-praticantes”.

Foi a instituição religiosa Igreja Católica Apostólica Romana quem primeiro demonizou as crenças nativas africanas. E, atualmente, são as igrejas pentecostais as que mais se dedicam ao combate às religiões afro. Existem religiões pentecostais que têm na completa eliminação dos cultos afro um ideal a ser seguido. Evidentemente, isto não é uma generalização, pois há cristãos evangélicos tolerantes e sem preconceito. Contudo, é inegável que para muitos evangélicos o “diabo” tem nome africano. O curioso é que nas religiões pentecostais há grande percentual de afro-descendentes (pardos e negros), o que revela que a aversão aos orixás também extrapola as barreiras de classificação “racial”.

Exú: de orixá mensageiro a diabo cristão.

Dentre os orixás mais incompreendidos está Exú (também conhecido como Legbá ou Elegbara entre outros nomes). Este orixá foi erroneamente associado ao diabo cristão ou Satanás. Tal equívoco foi fruto de uma incompreensão dos religiosos cristãos quando descobriram a religiosidade dos povos da África Ocidental.
"Comumente confundido com a figura de Satanás, o que é um absurdo dentro da construção teológica yorubá, posto que não está em oposição a Deus, muito menos é considerado uma personificação do Mal. Mesmo porque nesta religiãonão existem diabos e entidades carregadas únicas e exclusivamente por coisas ruins como fazem as religiões cristãs, estas pregam que tudo o que acontece de errado é culpa de um único ser que foi expulso, pelo contrário, na mitologia yorubá, bem como no candomblé cada uma das entidades tem sua porção positiva e negativa, assim como nós mesmos."
(Fonte: Wikipédia)
Exu é o orixá mensageiro entre o orun (mundo espiritual) e o aiye (mundo material), e que era encarregado de levar as oferendas para os outros orixás, e trazer aos fiéis os recados deles. Esse poder foi traduzido mitológicamente no fato de Exú habitar as encruzilhadas, cemitérios, passagens, os diferentes e vários cruzamentos entre caminhos e rotas, e ser o senhor das porteiras, portas e saídas. Provocador, indecente, astucioso e sensual, Exú é considerado o mais humano dos orixás, pois seu caráter lembra o de um ser humano que de um modo geral é muito mutante em suas ações e atitudes.

FONTE/ADAPTAÇÃO: http://www.mortesubita.org/jack/cultos-afros/teoria/na-terra-dos-crentes-o-diabo-tem-nome-africano/view

A Rainha Ginga

Nzinga Mbandi Ngola, A Rainha Ginga
(1587-1663)

Indomável e inteligente soberana (1624-1663) do povo Ginga de Matamba e Angola e nascida em Cabassa, interior de Matamba, que altaneira e silenciosa conseguiu juntar vários povos na sua luta contra os invasores portugueses e resistiu até ao fim sem nunca ter sido capturada, tornando-se conhecida pela sua coragem e argúcia. Do grupo étnicoMbundu, era filha do rei dosmbundus no território Ndongo, hoje em Angola, e Matamba, Ngola Kiluanji, foi contemporânea de Zumbi dos Palmares (1655-1695), o grande herói afro-brasileiro, ambos pareceram compartilhar de um tempo e de um espaço comum de resistência: o quilombo. Enviada a Luanda pelo seu meio irmão e rei Ngola Mbandi, para negociar com os portugueses, foi recebida pelo governador geral e pediu a devolução de territórios em troca da sua conversão política ao cristianismo, recebendo o nome de D. Anna de Sousa. Depois os portugueses não respeitaram o tratado de paz, e criaram uma situação de desordem no reino de Ngola. A enérgica guerreira, diante da gravidade da situação e da hesitação de seu irmão manda envenená-lo, tomando o poder e o comando da resistência à ocupação das terras de Ngola e Matamba. Não conseguindo a paz com os portugueses em troca de seu reconhecimento como rainha de Matamba, renegou a fé católica, aliou-se aos guerreiros jagas de Oeste e fundou o modelo de resistência e de guerra que constituía o quilombo. Com sua política ardilosa, conseguiu formar uma poderosa coligação com os estados da Matamba, Ndongo, Congo, Kassanje, Dembos e Kissama, e comandou a resistência à ocupação colonial e ao tráfico de escravos no seu reino por cerca de quarenta anos, usando táticas de guerrilhas e de ataques aos fortes coloniais portugueses, incluindo pagamentos com escravos e trocas de reféns. Após a assinatura de um tratado (1656) com o governador geral, que incluiu a libertação de sua irmã Cambu, então convertida como Dona Bárbara e retida em Luanda por cerca de dez anos pelos portugueses, e sua renúncia aos territórios de Ngola, uma paz relativa voltou ao reino de Matamba até a sua morte, aos 82 anos, sendo sucedida por Cambu, continuadora da memória de sua irmã, mas já estava em curso o declínio da Coligação. Dois anos mais tarde, o Rei do Congo empenhou todas as suas forças para retomar a Ilha de Luanda, ocupada por Correia de Sá, saindo derrotado e perdendo a independência, e no início da década seguinte o Reino do Ndongo foi submetido à Coroa Portuguesa (1771). A rainha quilombola de Matamba e Angola tornou-se mítica e foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória desafiou tempo, dando origem a um imaginário cultural que invadiu o folclore brasileiro com o nome de Ginga, despertou o interesse dos iluministas como no romance Zingha, reine d’Angleterre Histoire africaine (1769), do escritor francês de Toulouse, Jean-Louis Castilhon, inspirado nos seus feitos, e foi citada no livro L'Histoire de l'Afrique, da publicação Histoire Universelle (1765-1766). Ainda hoje é reverenciada como exemplo de heroína angolana pelos modernos movimentos nacionalistas de Angola. Sua vida tem despertado um crescente interesse dos historiadores, antropólogos e outros estudiosos do período do tráfico de escravos. Sua resistência à ocupação dos portugueses do território angolano e o conseqüente tráfico de escravos, tem sido motivo de intensos estudos para a compreensão de seu momento histórico, caracterizado por sua habilidade política e espírito de liderança desta rainha africana na defesa de sua nação.
Fonte: dec.ufcg.edu.br/biografias/Ginga000.html

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Rainhas Africanas


Os gregos e os romanos usavam o termo "Candaces" como nome próprio para designar as rainhas africanas com as quais estabeleciam relações políticas. O título foi comum a todas as 14 rainhas que governaram o império Méroe, na antigüidade, região da atual Etiópia. Subvertendo a lógica da dominação destinada às mulheres desde os tempos antigos, as Candaces simbolizam o poder feminino, não só de procriar, mas de lutar por seu território e por sua cultura, conquistando respeito, espaço e também prosperidade.Os historiados testemunharam que estas Candaces ocupavam-se da administração civil, dirigiam exércitos, o comércio e as relações diplomáticas. Algumas vezes cita-se a Candace como a rainha mãe, com poder suficiente para ter a última palavra no processo de seleção do faraó.
A mais conhecida destas rainhas foi a Candace Amanishakheto, rainha do reino sudanês de Napta e Meroe, nos tempos do Imperador Augusto, que se nega a submeter-se e assedia as legiões romanas. No ano 20 a.C. faz uma incursão no Egito, saqueando todas as cidades por onde passa até Elefantina. Arrastada pelas tropas romanas, solicita a paz e volta para o seu reino, q
ue graças ao tratado concluído entre Amanishakheto e o Imperador Augusto prospera ainda durante mais de duzentos anos.
Na história da África ancestral encontra-se a referência para as guerreiras negras contemporâneas brasileiras, as "Candaces do século XXI", que muitos consideram autênt
icas heroínas por sobreviver e defender seus filhos, sua família e sua comunidade. Defender
-se do dia a dia, da desigualdade no tratamento da mídia, do álcool - "muleta" sentimental" que "substitui" a falta de quase tudo, do tráfico potencialmente aliciador, dos desvios da p
olícia e da política discriminatória. Famosas ou anônimas, elas não vivem nenhum grande drama, além de serem mulheres e negras num país que se orgulha de ser miscige
nado, porém repleto de desigualdades e preconceitos.

Adaptação. Fontes:

http://ilhadofogo.blogspot.com/2007/10/rainhas-africanas.html
http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/media/16%20-%20a%20for%C3%A7a%20da%20mulher%20negra.pdf

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


"As mulheres devem estar conscientes da sua natureza sagrada de Deusas, o chamamento da glória inerente aos humanos. Somos filhas da História e Mães de um Novo Mundo. Não é altura de renunciarmos ao nosso poder. É tempo de o reivindicar, em nome do amor."
(em O Valor de Uma Mulher, Marianne Williamson)

sábado, 26 de dezembro de 2009

"Em toda tradição religiosa existe uma prática de devoção, e outra de transformação. Devoção significa confiar mais em nós mesmos e no caminho que seguimos. Transformação é praticar as coisas que este caminho impõe.
Quando você diz: "Estou determinado a estudar medicina", esta frase exerce um impacto na sua vida, mesmo antes de se matricular numa escola. Você vê este passo como algo positivo, e quer avançar em direção a ele. O mesmo acontece em qualquer tradição religiosa.
A chave é a plena consciência. Quando você bebe um como d'água profundamente, com todo o seu ser, a iluminação está presente em sua forma inicial. Estar iluminado, é sempre ter a visão clara a respeito de alguma coisa."

(Adaptado do livro Vivendo Buda, Vivendo Cristo, Ed. Rocco)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Por que Afrodite ameaça tanto a sociedade patriarcal? (Parte II)

O Nascimento de Afrodite

“Na época da criação dos primeiros deuses, Gaia, a Mãe-terra, e Ouranos, o Pai Celeste, haviam dado à luz muitos filhos divinos. Dentre os últimos a nascer estavam os Titãs, filhos monstruosos que odiavam o pai. De modo que Ouranos lançava-os de volta à pobre Gaia cada vez que um surgia.

Finalmente, um dos filhos mais jovens, Cronos, que também odiava o pai, voltou-se contra Ouranos e castrou-o com uma foice de pedra que Gaia fizeram especialmente para castigar seu cruel companheiro. Sem atinar, Cronos lançou então o membro decepado por sobre os ombros, e este caiu por terra. Das gotas ensangüentadas brotaram as Fúrias e os Gigantes, mas o membro genital caiu em tormentoso mar, onde foi carregado pelas ondas.

Da espuma que se formou em torno do pênis decepado foi crescendo uma menina. Ela foi primeiro levada pelo mar até Citera, e depois para Chipre, sempre envolta pelas ondas. Lá a linda deusa aportou com seus dois companheiros, Eros, cujo nome significa Amor, e Himeros, cujo nome significa Desejo. Quando tocou terra firme, a relva brotou debaixo de seus pés. Seu nome, para os mortais, era Afrodite, que significa “nascida da espuma”. (Hesíodo)

O mito nos diz que Cronos, filho de Gaia, a Terra Mãe, lançou no oceano os órgãos genitais arrancados de Ouranos. É chegado o tempo (Cronos) de tomarmos a tirania dos céus, o domínio do mental, impotente. Cronos era um deus da agricultura, de modo que sua sabedoria e poder pertencem a terra, juntamente com sua mãe Gaia. Na realidade, porém, ele ajuda a derrubar o pai tirânico não apenas para a terra, mas para a água. Vemos aqui o desenrolar de um drama cósmico dos elementos: terra, ar e água. O resultado da supressão da terra pelo ar é um novo nascimento vindo da água – Afrodite. A água costuma representar sentimentos e empatia na linguagem mitológica e onírica.

Como a maioria dos pais tirânicos, Ouranos passa a temer que seus filhos também queiram um pouco de ação, de modo que procura impedir que nasçam. Mas assim perde completamente contato com a Mãe Gaia, a consciência da terra e o mistério da procriação. Seu castigo é perder a própria falicidade, a capacidade de gerar algo novo. A consciência celeste torna-se impotente.

Mas devemos reparar bem no que acontece com os órgãos genitais perdidos, que se transformam no oposto dele. De uma tirania encarquilhada, esfacelante e masculina nasce uma bela jovem, inocente e feminina. É um milagre, o milagre da reversão dos opostos psíquicos. Quando ocorre uma inversão radical assim, significa psicologicamente que há uma necessidade enorme de compensação. Hoje, como na Grécia antiga, a abundante sexualidade Afrodite aparece como uma reação a um controle mental excessivo vindo de cima por parte do masculino.

Significa também que o patriarcado não pode pretender controlar a natureza essencialmente expansiva da energia feminina. Suprima-se a fecundidade da terra (Gaia) e ela ressurgirá novamente no tempo (Cronos) como uma energia erótica vibrante (Afrodite).[1]

Afrodite, certamente, não foi grega desde o início. A maioria dos estudiosos hoje a consideram uma descendente da deusa sumeriana Ishtar (mais tarde Astarte, na Babilônia), que era ao mesmo tempo uma deusa do amor e a rainha suprema do céu. Em seu culto estava presente a idéia do poder unificador e gratificador de Eros, acorrentado e corroído numa civilização doente.[2] A santificação do Eros e da procriação. Afrodite é o arquétipo da sexualidade e da sensualidade, do Eros livre. Não é virgem, pois valorizava as experiências emocionais e os relacionamentos, mas não como permanentes e duradouros. A eterna amante... Por se amar, tudo nela transpira amor.


[1] (A Deusa Interior – Um guia sobre os eternos mitos femininos que moldam nossas vidas, Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger)

[2] (Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, Herbert Marcuse)

sábado, 7 de novembro de 2009

Por que Afrodite ameaça tanto a sociedade patriarcal?

O que é tão perigoso na sexualidade de Afrodite? Por que ela é tantas vezes retratada como uma sedutora , uma bruxa, uma mulher fatal? Para os gregos, ela era a feiticeira Circe, fascinando os companheiros de Ulisses e transformando-os em porcos. Para os primeiros padres cristãos, a mulher sedutora era o próprio epítome do pecado. Na Idade Média, havia as perigosas náiades, ou ninfas da água, que fascinavam os cavaleiros errantes e os desgraçavam até a morte. Mais recentemente, tivemos uma Anna Karenina arrastando seu amante, Vronski, à objeção social e ao exílio, ou uma Hester Prynne marcada com a letra escarlate. Hoje em dia, as novelas de televisão estão repletas de sereias cavadoras de ouro que vivem arruinando reputações com seus estratagemas.

E a isca é sempre o fascínio sexual, a que os homens parecem ser totalmente impotentes para resistir. Os gregos racionalizavam a sua paranóia conferindo a Afrodite uma cinta mágica capaz de desarmar todos os homens e deuses que a ameaçassem.

Todavia, há algo altamente suspeito nesses exemplos – em todos eles, os homens são apresentados como vítimas. Vitimas de seus próprios sentimentos não admitidos talvez, mas certamente não vitimas efetivas das mulheres. Isso tudo cheira muito a culpa deslocada. Pois, se houve algum grupo social vitimado no Ocidente patriarcal, foram as mulheres.

Existem, a nosso ver, dois fatores atuando: o medo que os homens têm de perder o poder e um horror ao corpo. A questão do poder remonta à grande passagem da família matrilinear para a família patrilinear há muito tempo, muito tempo atrás. A questão do corpo é mais recente, tendo se originado na propensão ascética do cristianismo.

“A depreciação relativa da mulher de verdade é [...] compensada por impulsos demoníacos [do inconsciente, que ressurgem] projetados sobre o objeto. Num certo sentido, o homem ama menos a mulher como o resultado dessa depreciação relativa – e assim ela lhe aparece como uma perseguidora, i.e., uma bruxa. Daí a fantasia medieval sobre as bruxas, essa mácula inextirpável sobre o final da Idade Média, surgida paralelamente a – e, na realidade, como um resultado da – intensificação da adoração da Virgem” (Psychological Types, Jung)

O outro grande fator que está por trás do medo patriarcal de Afrodite é o horror ao corpo inculcado pelo cristianismo. O primeiro culpado, por consenso comum, foi São Paulo. A obsessão de Paulo era impedir a fornicação e, a seu ver, era este o principal valor do casamento. Embora achasse muito preferível manter-se sublimemente celibatário como ele, sempre que a carne se mostrar fraca é melhor, em suas palavras imorredouras, “casar-se do que arder” (I Coríntios 7:9) – o “arder” referindo-se, é claro, à concupiscência!

Paulo e aquele outro gigante espiritual e misógino, Santo Agostinho, lograram estampar o cristianismo e o Ocidente com uma aversão ao sexo e ao corpo da qual nós nunca conseguimos nos recuperar plenamente. (“Vim para Cartago, onde de todos os lados fervia a sertã de criminosos amores”, escreveu ele descrevendo os anos de tentação).

No final do século III, começou-se a discutir o celibato dos padres. O debate durou quase mil anos, até que a autoridade papal resolveu-o em favor de São Paulo. Um dos principais argumentos era que o contato sexual com uma mulher poderia profanar os santos sacramentos.

Ao longo dos séculos, uma série lúgubre de equacionamentos foi se estabelecendo na mente dos cristãos: Mulher = terra = sujeira = sexo = pecado. A queda do homem deveu-se a Eva, e a Igreja nunca deixou de advertir os homens de que é a mulher irá levá-los pelo primrose path to hell, como dizem os americanos, o caminho florido que leva ao inferno – curiosamente, Afrodite é a principal deusa das flores.

(A Deusa Interior, Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger)

domingo, 4 de outubro de 2009

Casamento

Embora a maioria das mulheres na sociedade ocidental moderna tenha consideravelmente mais liberdade do que as mulheres da grécia antiga, as estruturas básicas do casamento não se modificaram tanto assim. É verdade que o cristianismo tornou o casamento um sacramento; porém, excetuando-se as vertents mais liberais do pensamento protestante, o casamento ainda é considerado primeiramente uma instituição para a procriação de filhos. Permanece basicamente patrinilinear. Nem a felicidade sexual das esposas nem os seus direitos idividuais recebem muita atenção de católicos conservadores ou de fundamentalistas religiosos, graças aos séculos de puritanismo e da atitude cristã que ainda considera as mulheres inatamente inferiores aos homens.
A idéia romântica de casar por amor e a expectativa de alcançar uma plenitude sexual provêm exclusivamente dos trovadores da Idade Média e do culto do amor cortesão, não do cristianismo; a Igreja opôs-se fervorosamente a essas noções, tentando sempre impor restrições à expressão erótica. Temos hoje, por certo, uma imagem fortemente romântica do casamento, mas esta é em grande parte uma criação - embora tremendamente influente - da literatura e dos meios de comunicação.
De uma esposa contemporânea ainda se espera basicamente que ela esteja pronta para dar apoio ao marido e ás metas e objetivos dele, não vice-versa. É verdade que nos ultimos anos muitos homens têm se envolvido seriamente na criação dos filhos, e ao menos eles compreendem plenamente quanto tempo, trabalho e dedicação isso envolve. Até o presente, porém, nenhum homem chegou a propor seriamente que as mulheres sejam remuneradas por esse serviço ou que ele de alguma forma constitui uma contribuição economicamente mensuravel para a sociedade. Quando a mulher engravida, ela quase sempre sofre financeiramente no emprego em que ocupa. Tornar-se mãe significa inevitavelmente ser penalizada economicamente.
Em outras palavras, o casamento continua existindo primordialmente para perpetuar a supremacia patriarcal e apenas secundariamente para beneficio das mulheres. O elevado índice de divórcios e a decisão de tantas mulheres seguirem hoje o caminho solitário, tendo uma profissão e mandendo-se solteiras, ou de tentarem equilibrar um emprego e a chamda "produção independente" de filhos, clama em altos brados contra a inadequação do casamento como um lugar de crescimento e plenitude para a maioria das mulheres na fase de evolução em que hoje se encontram.
(In A Deusa Interior, Jennifer Barker Woolger, Roger J. Woolger)


“Se o divórcio aumentou em 1000 por cento, não culpe o movimento feminista. Culpe os papéis obsoletos dos sexos, nos quais os casamentos eram baseados.”
(Betty Friedan)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O trabalho com o Sagrado Feminino é algo muito belo e trabalha o resgate da força feminina, a reestabilização, a cura das Guerreiras Feridas.
O mundo de relações dinâmicas atuais, de responsabilidades, de paradigmas sociais, de muitos acontecimentos e mudanças, muito tem exigido e afetado tanto homens como mulheres. Falamos muito do feminino, da Guerreira Ferida atual; mas também o masculino tem sentido toda a grande aceleração de mudanças, as consequências das relações e também tem sido o Guerreiro Ferido.
O trabalho com o autoconhecimento, com o resgate da essência, com a harmonização e valorização pessoal é de suma importância. Para as mulheres, o conhecimento dos arquétipos das deusas e o aprofundamento dessa conexão promove o resgate e as forças necessárias para que a luz das deusas interiores voltem a brilhar.


(As Deusas e as Mulheres, Jean Shinoda Bolen)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A deusa ferida em todos nós

Quando Mary Daly descreve em Beyond God the Father como a "imagem do pai" do cristianismo distorceu e tiranizou nossa visão das mulheres no Ocidente, ela está também descrevendo o que Jung chamaria de poder desvirtuante de um arquétipo isolado. Os arquétipos podem chegar a possuir culturas inteiras, tornando-as neuróticas da mesma maneira que um "complexo de pai" pode levar uma pessoa a ser neuroticamente submissa à autoridade, por exemplo.

O que Daly e outras autoras feministas denunciam como o mal do "patriarcado" é precisamente o que os junguianos criticam como sendo o modo pelo qual a civilização ocidental acabou sendo unilateralmente ofuscada pelo arquétipo do Pai, à exclusão do arquétipo da Mãe. Em nossa reverência exclusiva ao princípio paterno, em que suprimimos ou menosprezamos o feminino, acabamos provocando graves danos à nossa saúde psíquica individual e coletiva. Isso sem mencionar a saúde física de nosso corpo e a do próprio planeta Terra.

Mas há sinais indicando que, espontânea e conscientemente, o pêndulo começa efetivamente a oscilar. A supremacia patriarcal vai manifestando sintomas de falência espiritual, e em toda parte - nas artes, na literatura, na política, nas igrejas - há sinais de um enorme ressurgimento do feminino, da consciência matriarcal. Um auspicioso "retorno da Deusa" está certamente ocorrendo.

É urgente, portanto, que compreendamos a natureza e a condição dos arquétipos femininos que estão despontando do inconsciente coletivo da nossa cultura. A primeira coisa que notamos é que, como qualquer pessoa que foi encarcerada, exilada, vituperada e caluniada, as deusas, ao serem restauradas na consciência como princípios psicoespirituais, frequentemente parecem fracas, confusas, magoadas, feridas. Esses ferimentos se devem ao tratamento áspero e cruel que receberam nas mãos da repressão patriarcal: Afrodite envergonha-se de sua sexualidade; Atena questiona sua capacidade de pensar; Hera duvida do seu próprio poder; Deméter desconfia de sua fertilidade; Perséfone nega suas visões; Ártemis não sabe interpretar sua sabedoria corporal instintiva. Isso, e muito mais, é o legado do exílio psquico do feminino.

Devemos prestar atenção especial ao que chamamos chagas das deusas: as mágoas profundas que todas elas sofreram, ferimentos que lhe foram infligidos durante a longa história da batalha psicológica pela supremacia empreendida pelas forças masculinas na cultura ocidental. Não importa se essas chagas surgiram pela primeira vez com a hegemonia guerreira dos gregos antigos, com o imperialismo dos romanos ou com o medo puritano do feminino e do corpo entre certas facções do cristianismo; a nós urge perguntar por que toda mulher moderna carrega dentro de si resquícios da chaga de uma deusa específica que vem apostemando-se há quase três milênios.


(in A Deusa Interior, Jennifer Barker Woolger)

domingo, 13 de setembro de 2009

A mulher livre

"A mulher não tem que se tornar igual a ninguém. Ela tem de pertencer-se. Ela deve libertar-se da imagem que lhe é imposta por uma sociedade dominada pelos valores masculinos. Ela deve, sobretudo não fazer do homem o modelo da sua libertação. Será assim que ela vai criar uma sociedade nova. Quanto ao homem, que ele contribua para libertar a mulher, primeiro e antes de tudo aceitando o sua parte feminina nele próprio. Reconhecendo os valores femininos que em si mesmo esperam expandir-se assim como no mundo. A fim de que possamos juntos construir uma sociedade nova. Esta civilização, não se realizará jamais se nós não permitirmos às mulheres de a criar. O Porvir é das mulheres, porque elas interrogam-se pelos olhos das crianças."

Omraam Mikhaël AIVANHOV

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre a Legalização do Aborto

A questão não é que o aborto é um assassinato de fetos, e sim que ele vem sendo uma das principais formas de assassinato sistemático de MULHERES já que o aborto clandestino é a 4a maior causa de mortes femininas no Brasil e no mundo...

O aborto, sendo proibido ou não, vai continuar acontecendo. E acontecendo nas piores condições... um grande desrespeito à vida da mulher, algo que denuncia o desvalor de seus corpos e de suas vidas nesse país, porque é uma proibição com um custo muito grande pra nós e que serve só pra satisfazer aos machistas e religiosos inconsequentes.

O aborto nunca foi defendido como um método contraceptivo, mas sim como um recurso último se caso ocorrer, a mulher não fique desamparada e morra de hemorragia uterina por ter tentado abortar com agulha de tricô, tomando misturas químicas esdrúxulas ou na vizinha e em clínicas clandestinas sem fiscalização, morram de infecção hospitalar, ou sobrevivam sem um útero, ou inferteis, ou com complicações ginecológicas pro resto da vida...


Há feministas que defendem aborto, há também feministas que são contra, mas não são contra a existência desse direito, mas sim favoráveis a que haja um incentivo maior às campanhas de informação, formação sexual da mulher, disposição de meios contraceptivos e etc. É o que deveria estar acontecendo.

Por trás da proibição do aborto está a lógica patriarcal, em que o corpo das mulheres está nas mãos de um estado controlado por homens, e isso trás a lógica de que os filhos são de propriedade dos homens,assim como o corpo das mulheres, que serve a reprodução de herdeiros, cidadãos guerreiros, proletários explorados, consumidores vazios...

Enfim: quem tem que decidir isso são as mulheres, e não os terceiros...que nunca vão saber como é isso, passar por isso, e SER MULHER...ter um útero e um corpo e a dor de sentir que ele não é seu.

domingo, 5 de julho de 2009

GUERREIR@S DO 234

Assim chamou-se a vitoriosa ocupação da Mem de Sá, e se dizemos vitoriosa, mesmo desalojada, é porque em tempo algum a estupidez venceu as flores).

Bombas de efeito imoral... Coturnos e cassetetes.. . Spray... Meu rosto vermelho de ódio e pimenta! Tanta força bruta, pouco direito, pouca educação... Ordem para os pobres, progresso para os ricos!, alguém já deve ter dito isso antes ...
A constituição rasgada diante dos nossos olhos, a truculência policial desfilando na avenida..., Sete de setembro? Não, despejo. Cacos de direitos humanos pelo chão... Falou-se em cumprimento da lei, mas cumprimento da lei não implica em humilhação e tortura, e se a lei não serve ao povo, e se o povo é a maioria, ora, então de que serve a lei? Era mais que “dever” aquilo, era perversão mesmo, fetiche... Aqueles homens (?) se realizavam em sua violência... Alguns riam... Risos.

Crianças cantavam... Cantavam alegremente. .. Cantavam loucamente.. . E o desespero se misturava ao amor... Cantavam palavras de ordem, cantavam o hino nacional, e também canções religiosas.. . Que importa?! As crianças cantavam, e cantando se formavam numa autêntica Educação para a democracia! De maneira irônica e mesmo heróica os princípios políticos proclamados na LDB se cumpriam, crianças sem casa e talvez sem escola, mas não sem educação.

Sim, aquilo era Educação popular
, um processo genuíno de formação política das classes populares, um ato educativo, pedagógico mesmo. E formando-os, também nos formávamos. Educação com o povo, educação popular.

Agora, detidos e transportados como animais na traseira de um Camburão, dividindo um espaço ínfimo, quase sufocados, no auge do nosso sofrimento, o companheiro Vlad. voltou-me os olhos úmidos e sorrindo, perguntou:

- Como vai a vida, companheiro? Está amando?
- Sim, amo, - respondi - mas não vou bem na faculdade...

E rimos, e assim sublimamos o sofrimento. A luta política é antes uma forma de ressignificar o sofrimento humano. O Vlad. pensou que morreríamos (porque a viatura tomara um destino diferente do informado), eu só queria sair dali, mesmo que fosse para isso - estava sufocando e àquela altura me concentrava em respirar. Em certo ponto daquele passeio bizarro, disse-lhe: - É só se concentrar, companheiro, concentre-se. .. Nossa companheira, no banco da frente, discutia firme e serena com o policial, e foi chamada de safada e palhaça por ele... Lá de trás, tivemos que ouvir isso em silêncio... A companheira. E continuava contestando e resistia bravamente. Minutos antes, num gesto de paixão e desprendimento, a companheira D. lançara de volta um jarro de mágoas que um soldado romano havia atirado em nós, e o jarro enfumaçava a rua... E era como um incenso, incenso de repressão...
Em certa altura da Batalha, tive a impressão de que a repressão do estado pesa de forma mais contundente sobre aqueles que têm a pele mais escura, ou menos clara, como queiram... Ouvi relatos da companheira G. voando pelos ares, enquanto eu era “conduzido” (recebendo uma “gravata”) com o corpo dobrado para frente, como em gesto de obediência e submissão... Não houve ofensa racial, de fato, mas houve tratamento racial; ali eu fui, sem dúvida, um escravo sendo capturado por um capitão do mato. O meu Black voava pelo ar, de pé para a luta. Vale dizer que aquela ocupação era negra. Neste país, o poder senti-se mais a vontade para se exercer sobre os não-brancos. Estávamos ali, e pessoas brancas e de belos olhos também lutavam e resistiam bravamente, e sofriam, e eram esmagados... E havia beleza e horror naquilo tudo!



Sim, esmagados em plena a democracia, a ditadura continua para os pobres em geral e para os negros em específico.




Por fim chegamos, e após uma eternidade saímos. E quando saímos tocava em algum canto da cidade uma canção do Bob Dylan, e sabíamos então que estávamos livres... Livres agora... Abraçamo-nos todos e todas, durante todo processo amparados por um bravo advogado, o companheiro e Dr. A.P, homem de meia-idade que trazia nos olhos o brilho vivo da ideologia, e animados pelo encorajamento de outros lutadores e lutadoras. (E enquanto isso ocorria, muitos outros continuaram na praça de guerra, acompanhando, registrando e orientando todo o processo)
Demos mais um passo em liberdade, e de repente era preciso continuar a luta, a luta continua, alguém diria, havia inúmeras famílias desalojadas... Era preciso ainda ocupar e resistir!

R.Q.

[Texto escrito por um manifestante contra o desalojamento da ocupação de um prédio abandonado do INSS, no Rio de Janeiro.]